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Semana Santa em Massangulo. Um Testemunho
Quinta, 25 Abril 2019 00:06
IMG 20190423 WA0002Sábado, dia 13, realizou-se a peregrinação dos jovens ao monte cruz. No dia anterior, um grupo de jovens acompanhado pelo animador da Paróquia Fernando Manuel, subiram o monte levando consigo catanas e enxadas para abrir o caminho. A sua missão de ‘matadores’ foi deveras útil já que, o estado do sendeiro que conduz ao cimo do monte, estava completamente coberto de altos fetos e uma variedade de ervas e arbustos crescidos ao longo da intensa estação chuvosa. O dia estava coberto de uma densa camada acinzentada com um intenso orvalho várias vezes perfurado pela chuva e chuvisco. Como tínhamos no programa a substituição da velha cruz já gasta pelo tempo (mandada colocar, segundo ouvimos, pelo padre Mário Teodori), eu saí com o primeiro grupo por volta das 06h30’, tendo em consideração as dificuldades do empreendimento, enquanto o pe Diamantino acompanhou o resto dos jovens que saíram um pouco mais tarde. No pátio da Missão levantámos a cruz e formando um círculo à sua frente rezámos e implorámos a bênção divina para que tudo pudesse correr bem. Organizada a comitiva daqueles que carregavam a cruz, transportavam sacos plásticos de cimento e galões para mais tarde encher de água, partimos. Respirava-se um ar confiante e gracioso. Numa espécie de fila indiana um pouco desorganizada avançamos até aos tanques da água onde parámos para carregar areia. O animador seguia à frente e eu logo após a cruz para melhor poder valorizar o esforço daqueles jovens intrépidos que carregavam a cruz sem jamais se queixarem do seu peso. Na verdade´, a cruz, feita de tubos de ferro cromado com a espessura de três polegadas, era pesada. Num serpenteado ascendente, fomos avançando corajosamente, parando de vez em quando para recuperar a respiração e permitir o rendimento dos que carregavam a cruz. Devido ao entrelaçado de liambas e à estreiteza de certas partes do sendeiro pelos penedos que o ladeavam, o esforço dos jovens chegava a ser notável. O último obstáculo, o mais desafiante, foi mesmo já na parte final na subida para a grande superfície de pedra onde deveria ser colocada a cruz. Nestes momentos é interessante observar o esforço solidário de todos repartido pelas vontades individuais de superar os obstáculos e prosseguir até à meta final. A determinação humana pode chegar a ser como uma força vulcânica que, brotando do interior da pessoa, pode fazer tremer o mundo, pode transformá-lo em calor e luz. O grupo que partiu depois acabou por se extraviar no caminho e deambular por matas e fetos até ao encontro da densa floresta tropical localizada na parte esquerda da subida. IMG 20190423 WA0003IMG 20190423 WA0009Não conseguindo encontrar o caminho, pediram ajuda por telefone para que alguém fosse ao seu encontro. Subitamente, um grupo de vários jovens, acompanhados pelo animador da paróquia partiram ao seu encontro. Depois de cerca de uma hora, escutavam-se vozes altercadas e cânticos espontâneos daqueles que, tendo ficado para trás, sentiam a alegria de poderem chegar, também eles, ao cimo do monte, ao lugar da cruz. Depois de breves momentos de intercâmbio entusiasta entre os dois grupos, e já todos acomodados, iniciámos a eucaristia presidida pelo pe Diamantino. Na sua homilia referiu o simbolismo da montanha na linguagem bíblica como proximidade com Deus e enalteceu o entusiasmo e coragem dos jovens que, apesar do nevoeiro e da chuva e mesmo tendo-se transviado, não desistiram nem desanimaram mas se mantiveram firmes e fiéis até ao cimo. Em tais momentos e circunstâncias, as dificuldade e sacrifícios da caminhada se dissipam deixando espaço a uma alegria gozosa experimentada apenas por quantos ousaram e acreditaram. Depois da eucaristia, um grupo considerável de jovens, liderados pelo animador Fernando, prepararam o betão que serviria para fixar a base da nova cruz e embuti-la, preservando-a assim da corrosão da ferrugem. Quando o trabalho estava quase concluído, eis que vimos chegar, carregados com sacos de areia à cabeça o Sr Estevão mais o grupo Bwana vindos para nos socorrer ao terem sido solicitados para nos apoiarem. Olhando para IMG 20190423 WA0001todo este panorama, comentava comigo mesmo sobre a coragem e generosidade desta gente que é o meu povo e não podia deixar de me sentir edificado e enriquecido pelo seu exemplo, pelo seu testemunho. Durante o cerimonial da reposição da cruz, o resto dos jovens se entretinham amigavelmente em conversas risonhas dando àquele lugar e àquele momento todo uma sensação de gozosa comunhão entre o humano e o divino. Colocada a cruz e afinados os nivelamentos achámos por bem deixar a pintura para outro dia e iniciámos a descida sabendo que era necessário arte e prudência para evitar as escorregadelas, pelo menos as mais perigosas. Na parte final da descida, acompanhado pelo pe Diamantino e mais alguns curiosos, passámos pela zona da captação da água onde encontrámos o sr Bwana mais a sua equipa a trabalhar com convicção. Depois de breves momentos neste bonito espaço animado pela natureza e pelo marulhar da água que desce do monte avançamos até casa onde chegámos por volta das 14h45’. 

Domingo, dia 14, iniciámos a procissão de ramos na zona do mercado precedida por algumas breves palavras proferidas pelo pe Diamantino debaixo da grande árvore. Um bom número de fiéis compareceu no local e vários outros se foram juntando à procissão ao longo do trajecto. Para animar ainda mais, o pe Diamantino convidou todos os participantes a agitarem os seus ramos voltados para a direcção dos quatro pontos cardeais iniciando pelo oriente, o lado do sol nascente. O mesmo ritual foi repetido a meio do percurso e à chegada ao santuário. O evangelho, que deveria ser pronunciado no inicio da procissão, foi pronunciado desde o cimo da escadaria em frente ao santuária por acharmos que se escutava melhor. A eucaristia foi animada e um bom grupo de pessoas, muitas de elas vistas pela primeira vez, enchiam a igreja e se deixavam envolver pela liturgia quente e animada daquela celebração festiva. O pe Diamantino, que presidiu à eucaristia, sublinhou de forma breve e pontual os elementos mais importantes associados à liturgia do Domingo de Ramos e à espiritualidade da quaresma de uma forma geral. Da parte da tarde fomos visitar os velhotes Ângelo e Elisa e partilhar com eles um pouco de alimentos para atenuar a sua extrema pobreza. O velho, quase paralisado, rapidamente retomou os ânimos ao ser levantado pelas costas pelos braços fortes da sua esposa que é também o seu Anjo da Guarda, o seu complemento de vida.

Uma nova semana se abriu cheia de possibilidades a não perder e, desta forma, toda a gente à volta da Missão, cada qual no seu âmbito, se lançaram ao trabalho, se lançaram a valer. Entre os acontecimentos marcantes do início desta semana, destacam-se a encontro do pe Diamantino com os estudantes do ESAM onde lhes explicou a história da Missão de Massangulo começando pelas origens. Para melhor ilustrar esta sessão, servimo-nos da projecção de algumas fotos da época que servem como documentos históricos de uma riqueza inquestionável preservada pelo tempo.

Terça-feira, dia 16, logo após o pequeno-almoço partimos, eu mais o pe Diamantino, para Lichinga com o intuito de participar na Missa Crismal com o Bispo da Diocese D. Atanásio e os seus padres. Esta celebração serve também como pretexto para o encontro dos missionários da Consolata da Província do Niassa e que, desde há vários anos, se foi tornando quase uma tradição. O pe Edilberto esperava-nos o dia anterior para o jantar que deveria ser também um momento de confraternização e um gesto fraterno de comunhão com o pe Diamantino pela sua recente nomeação para bispo de Tete. Ao não ter sido possível pela falta de informação ou distracção da nossa parte, acabámos por perder o sabor do churrasco e contentar-nos com o que sobrou para o dia seguinte. Terça-feira à tarde, reunimo-nos por volta das 14h30’ para partilhar a vida de cada uma das missões e concordar datas e eventos para o futuro próximo nomeadamente a participação na ordenação episcopal de Dom Diamantino que terá lugar no dia 12 de Maio em Tete e programar as datas das viagens para a Assembleia Regional com início previsto para o dia 30 do mesmo mês. A Missa Crismal com o Bispo iniciou por volta das 18h00’ na catedral de Lichinga com a participação de quase todos os padres da Diocese. Foi animado pelo grupo coral ‘Sta Cecília’ e a ela acorreu um certo número de fiéis sem contudo ocuparem todos os espaços disponíveis. A Celebração foi mais bem simples e um pouco longa. Já na parte final, Dom Atanásio referiu-se ao pe Diamantino com palavras cordiais e simpáticas e convidou toda a Diocese a unir-se a ele e a participar na sua ordenação. Na mesma eucaristia foi dada a palavra ao pe Sapato que fez um breve relato sobre a sua experiência na cidade da Beira a quando da passagem do Ciclone ‘Idai’ com um fundo cómico e bem-humorado. Depois da celebração seguiu-se um momento de confraternização nos espaços do Paço-episcopal para todos quantos se animaram a comparecer. Estes momentos são importantes pela sua densidade fraterna e pela simplicidade espontânea que a todos congrega como irmãos e amigos.

Regressando a casa, tínhamos agora a peito a preparação para as festividades pascais. Um programa detalhado com as orientações litúrgicas e logísticas para as comunidades vindas de fora tinha já sido traçado e distribuído. Os candidatos ao baptismo foram convocados alguns dias antes, mesmo que a maior parte não chegou a comparecer por diversos motivos justificados. Em seu lugar, vieram diversas crianças e adolescentes acompanhados por alguns adultos sem muita noção das verdadeiras motivações pelas quais foram enviados. Chegaram domingo dia 14 à tardinha e só me apercebi da sua presença quando o guarda Luciano me veio comunicar à hora do jantar. Fui ter com eles e encontrei-os sentados no chão como pintainhos que se aconchegam uns contra os outros na ausência da mãe. Tranquilizámo-los e, depois de instalados, preparámos algo para se alimentarem e restabelecerem as forças da longa caminhada de várias dezenas de km a pé ou de bicicleta.

Quinta-feira, por volta das 18h15’, iniciámos a celebração da Eucaristia com o ritual do lava-pés. A equipa de electricistas que trabalhara duro durante todo o dia, permitiu uma luminosidade na parte exterior e no coro da igreja com um particular vislumbre que não deixou ninguém indiferente. Notava-se uma satisfação contagiante em todos quantos tinham vindo de longe mas também na comunidade local que se regozijava do seu papel de anfitriões. Um bom número acorreu à celebração e, depois de concluída, procedemos à trasladação da Eucaristia para o lugar do ‘Monumento’ previamente preparado na capela lateral esquerda do Santuário. Houve em seguida um momento de oração e adoração conjunto que se estendeu depois em pequenos grupos até por volta das 22h00’.

Sexta-feira Santa, encontrámo-nos de novo no mesmo local para a oração do ‘Oficio litúrgico’ do dia juntamente com a comunidade das Irmãs da Paz e da Misericórdia e todos quantos tinham vindo de longe. Algumas pessoas da comunidade local acudiram também ainda que em menor escala. Da parte da tarde, por volta das 15h00’, seguiu-se a celebração da Via-Sacra animada pelos jovens. Iniciámos na zona do mercado e fomos subindo até às imediações do Santuário onde decorreram as últimas estações. À medida que íamos avançando o número de participantes ia engrossando e, o pequeno grupo inicial, foi dando lugar a uma multidão considerável que acompanhava os diversos passos da via-sacra com respeito e devoção. O momento mais forte foi certamente aquele da crucifixão e morte representado pelos jovens com particular realismo que tocou muitos dos participante até às lágrimas. Seguiu-se a celebração da liturgia da paixão na igreja nos seus três momentos:, liturgia da Palavra, adoração da cruz e comunhão. A celebração concluiu por volta das 17h30’. À noite, depois do jantar, foi projectado um filme na igreja em língua Chichewa para deleite de todos quantos, vindos de longe, escutavam falar as escrituras na sua própria língua. O dia que havia sido de jejum e abstinência, dava agora lugar a uma noite de repouso e recolhimento num ambiente fraterno e solidário com todos quantos, espalhados pelo mundo, se uniam aos sentimentos de Cristo crucificado e morto.

Sábado, dia 20, logo de manhãzinha, nos encontrámos de novo na igreja para a oração do ofício litúrgico da recitação dos salmos completada, como no dia anterior, com um suplemento em língua Chichewa animada pelas comunidades da ‘diáspora’. Ao longo da manhã, um número considerável de jovens do ESAM animados pelo professor Henriques, pedagógico, se espalhavam pelas imediações da missão cortando arbustos e raspando ervas com a finalidade de tornar o ambiente mais limpo e agradável. Uma boa parte desses jovens eram muçulmanos que se entregavam com determinação ao trabalho como o haviam feito já no dia anterior na limpeza da igreja. Nos espaços internos da Missão, dava-se continuidade ao programa formativo traçado para estes dias cabendo-me a mim e ao animador Fernando ficar com os homens e à Irmã Noémia mais a Mamã Victória com as mulheres. Da nossa parte, abordámos questões relacionadas com a ‘liderança e a sustentabilidade económica das comunidades’ enquanto do lado feminino foram abordados temas sobre ‘economia doméstica’ e o papel da mulher na sociedade e no lar’. A participação foi animada e o tempo chegou mesmo a ser curto. Por volta das 13h00’ seguiu-se o almoço, sendo deixada a parte da tarde para pequenas tarefas de limpeza e ensaios litúrgicos. A Vigília Pascal iniciou por volta das 22h00’ no jardim em frente do Santuário com a ‘liturgia do fogo’ e a bênção do Círio Pascal. Em procissão para a igreja, o pe Diamantino abria o caminho com o círio nas mãos, entoando por três vezes o refrão ‘a luz de Cristo’ ao qual a assembleia respondia ‘Graças a Deus’. A celebração foi uma autêntica manifestação de júbilo e de alegria. A primeira parte, dedicada à liturgia da palavra, esmoreceu um pouco os mais pequenos que pouco ou nada compreendiam porém, com o cântico de glória acompanhado pelo tocar dos sinos e das campainhas, uma verdadeira explosão de festa eclodiu por toda a igreja incitando toda a assembleia à festa. Particularmente expressivo foi o momento do baptismo dos jovens e crianças que não conseguiam esconder a sua satisfação e protagonismo. Os 10 baptizados foram um estímulo e um reforço anímico e de fé para toda a assembleia e de modo particular para aqueles que desejam também eles fazer parte desta grande família que é a Igreja. Eram já as duas horas da madrugada quando a celebração foi concluída num verdadeiro ambiente de alegria contagiante pela sua beleza e pela certeza da ressurreição daquele que, por Amor, se entregou por todos sem limites. Um pouco de repouso se impunha sabendo que, daí a algumas horas, deveríamos voltar à igreja para completar a grande festa da Páscoa. Por volta das 09h30’, dávamos início à celebração da eucaristia de Páscoa com a igreja a encher-se de gente. Um imenso número de crianças exuberantes e inquietas ocupava o lado esquerdo do presbitério num fervilhar de comentários sobre a dimensão dos acontecimentos a que elas aderiam com espontaneidade e alegria. Depois da missa, que concluiu por volta do meio-dia, dirigimo-nos em procissão até à capelinha localizada no ‘Jardim da Consolata’ e, que, por ser inaugurada neste dia, decidimos dar-lhe o nome de ‘Capelinha da Ressurreição’. A decisão foi tomada num encontro extraordinário da ‘equipa missionária’ convocada dois dias antes para o efeito. Na homilia e, no final da eucaristia, procurei explicar a toda a assembleia o simbolismos deste pequena capela que quer render homenagem a todos quantos trabalharam para o desenvolvimento da Missão e, ao mesmo tempo, motivar toda a paróquia a aderir a este momento favorável em que as garras da morte são vencidas pela força da vida, pela presença do Espírito de Jesus ressuscitado que nada nem ninguém pode negar ou vencer. O pe Diamantino, que presidira já às celebrações da Sexta-feira Santa e da Vigília Pascal, foi convidado também a benzer este local depois de ter proferido uma pequena alocução sobre o valor e o significado da imagem da Consolata trazida pelo padre Ângelo Lunati da Itália e que, agora, será a guardiã desse pequenino santuário, cuidadosamente pintado por um muçulmano, e da fé de todos quantos a ele acudirem para orar independentemente da sua fé. Depois da cerimónia, já por volta das 13h00, as pessoas despediam-se do local enquanto a maioria das crianças se empurravam umas contra as outras em torno a uns quantos jovens que repartiam bolachas e sumo para tornar o momento mais solene.

A multidão, espalhada no pátio da missão, regalava-se agora copiosamente com o saboroso almoço que abundantemente foi oferecido às comunidades vindas de fora e a muitas pessoas locais que se fizeram convidar. Olhando à distância, via naquela gente adornada de cores festivas e gargalhadas fáceis, a imagem da consolação ou da satisfação trazida por Jesus ao mundo e tão presente na multiplicação dos banquetes antes e depois da Ressurreição.

Dadas as distâncias, a grande maioria das pessoas vindas das comunidades, pediram para ficar um pouco mais e partir no dia seguinte. As crianças que, pela primeira vez, saíram das suas pequenas aldeias rurais, corriam como pássaros livres por toda a parte inundando o espaço de alegria pascal. As mamãs cuidavam carinhosamente dos seus pequerruchos e os homens detinham-se em animadas cavaqueiras em línguas locais como no Pentecostes.

Segunda-feira, dia 22, madrugaram para lavar as mantas e limpar os espaços que ocuparam. Por volta das nove horas, depois de terem tomado o pequeno-almoço e recebido algumas latas de leite para as crianças e mais alguns produtos alimentares para partilharem com as pessoas mais pobres à sua chegada a casa, fizeram-se ao caminho em pequenos grupos olhando esporadicamente para trás com um misto de alegria e nostalgia como acontecia com os judeus ao deixarem Jerusalém repetindo secretamente no seu coração ‘O próximo ano em Massangulo’. Amen. Aleluia. Aleluia.