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Padre Amadeo Marchiol uma vida de Missão
Quarta, 28 Setembro 2016 19:18

IMG 8394Os primeiros anos de missão: aprendiz na arte de ser missionário (1953-1956)

Em 9 de Março de 1953 chegou a Moçambique. Trabalhou na actual Diocese de Inhambane, na Missão de Mapinhane (1953), na Missão de Maimelane (1953-1955) e em seguida na paróquia da Matola (1955-1956), na actual Arquidiocese de Maputo.

Jovem missionário, aprende com os missionários mais velhos a arte de fazer missão no contexto difícil onde os recursos são escassos e a evangelização é vivida a par de outras igrejas e seitas. Desde logo manifesta espírito de sacrifício e capacidade de trabalho. Visita escolas a pé, celebra sacramentos, trabalha duro na oficina, na serração e na carpintaria de Mapinhane.

Em 31 de Dezembro de 1956, perto dos 30 anos, é nomeado Superior da Missão de Nova Mambone, cargo que desempenha até 16 de Fevereiro de 1971, quando é transferido para a Missão de Muvamba como coadjuctor (1971-1973). Em 7 de Setembro de 1973 regressa à Missão de Mambone.

Missão de Nova Mambone: ao serviço da evangelização e promoção das populações (1956-1975)

Em finais de 1956 o Padre Amadeu Marchiol é nomeado superior da Missão de Nova Mambone, a Missão do Sagrado Coração de Jesus dava os primeiros passos e atravessava grandes dificuldades do ponto de vista pastoral e do ponto de vista económico. Lança-se com determinação ao trabalho. Aprende a língua cindau e abre novas escolas no território do Govuro e de Mabote.

A região é pobre, com poucos recursos e carente de estruturas fundamentais. Era necessário encontrar uma actividade económica rentável que permitisse construir obras sociais e pastorais e que melhorasse as condições económicas da população local.

Observador e engenhoso, descobriu numa planície de terra argilosa a ideia de abrir uma salina que ajudasse a missão e o povo daquele recanto da província de Inhambane. Em 1957 solicita ao governo autorização para abrir uma salina. A resposta positiva só chegou nove anos mais tarde, em 1966.

Iniciam-se então os trabalhos de construção, numa pequena área. Através de um longo canal natural, ao ritmo das marés, a água do mar da baía de Bartolomeu Dias chegava pela primeira vez à planície de Batanhe, depositando nela partículas de cristal de sal que logo verificou serem de excelente qualidade.

No início dos anos setenta, a produção aumenta. Os primeiros lucros da produção obtida são imediatamente reinvestidos, desta vez num canal de irrigação, que conduz a água do rio Save para terrenos próximos onde a população pode plantar arroz. Cria uma cooperativa agrícola. Preparam-se 60 hectares de terreno e a primeira colheita de arroz é um sucesso.

Mas, em 1975, após a independência, o Governo nacionaliza as obras da Missão e tenta também apoderar-se da salina. Impede-o o facto de esta estar registada em nome do Instituto Missões da Consolata e não em nome da Igreja local.

 

Superior Regional: o homem certo no momento certo (1975-1981)

Em 20 de Julho de 1975, poucas semanas depois da proclamação da independência nacional, o Padre Amadeu Marchiol foi eleito superior a Região Moçambique. Era a pessoa indicada, quer pela sua determinação e experiência, para ajudar os missionários a superar as inúmeras dificuldades com que se deparavam neste período: nacionalizações dos bens das missões, proibição da prática religiosa, expulsão de missionários, restrições ao movimento dentro do país, etc.

Nesta fase difícil da história da Igreja e do Instituto da Consolata em Moçambique, o Padre Amadeu Marchiol manteve-se em contacto com os missionários do Niassa, Inhambane e Maputo, procurando solucionar comunitariamente as dificuldades que se apresentavam. Em 1976, realizou cinco visitas ao Niassa e outras tantas às comunidades de Inhambane. Com coragem defendeu missionários presos e expulsos, colocou a salvo os documentos das missões nacionalizadas (diários, livros de assentos dos sacramentos, etc.), dialogava com as autoridades políticas e soube ultrapassar muitos condicionalismos. Durante as visitas que fazia às missões, o Padre Marchiol registou diversos contratempos, chegando mesmo a ser preso por duas vezes.

Terminado o primeiro mandato de 3 anos, no dia 5 de Abril de 1978, foi reeleito Superior Regional. Durante o ano de 1979 não lhe foi possível fazer qualquer visita ao Niassa, pois a autorização solicitada ao Ministério do Interior foi-lhe sempre negada. Todavia, visitou em diversas ocasiões as comunidades de Inhambane.

A partir de Roma, a Direcção Geral do Instituto seguia com atenção o desenrolar dos acontecimentos em Moçambique. Manifestava a sua solidariedade com os missionários e sempre que possível fazia-se presente localmente, para conhecer a situação e incutir coragem.

 

Em 1977 o segundo conselheiro geral, Padre Luís Serna, chega a Moçambique. De 21 a 31 de Outubro visitou os missionários do Niassa na companhia do Padre Marchiol. Uma visita marcada por um imprevisto. Ambos foram presos no dia 28 de Outubro, durante a visita aos missionários de Cuamba. Foram reconduzidos a Lichinga e no dia 31 de Outubro foram despachados para Maputo, sem poderem concluir o seu programa de visita às restantes comunidades missionárias. Sem as mesmas vicissitudes, puderam continuar a visita às comunidades de Inhambane.

 

O regresso a Nova Mambone: a missão sofrida e presença de consolação (1982-2011)

Terminado o mandato como superior regional, o Padre Amadeu regressa em 1981 como superior da Missão de Nova Mambone. Nas margens do rio Save continuou a viver os momentos mais exaltantes mas também mais difíceis da sua vida missionária. Recordamos o seu trabalho em defesa das populações vítimas da violência ideológica, da guerra e da fome. Nas comunidades e na salina, com o Irmão Pedro Bertoni, fez tudo aquilo que esteve ao seu alcance para manter viva a esperança e contribuir para o desenvolvimento espiritual e humano da população. Viveu momentos dramáticos e sofreu com o povo por quem fez tudo o que estava ao seu alcance. Como não recordar os anos difíceis da guerra civil em que permaneceram em Nova Mambone para estar junto da população e ser solidários com todos? Compartilhou com gente comum o sofrimento nas viagens em coluna, ataques, fome e tentativas de sequestro por parte da guerrilha, como daquela vez em 28 de Novembro de 1982, quando a Missão foi atacada e por um triz conseguiu fugir com o Irmão Pedro Bertoni de um rapto já quase certo.

Por causa da guerra, teve que deixar Mambone em 20 de Dezembro de 1982 e retirar-se para a Beira, sendo nomeado pároco da Paróquia de Macuti. Da Beira continuava a seguir as comunidades cristãs de Nova Mambone e agora também as da Missão de Machanga, Foram épicas e perigosas as suas viagens de barco da Beira até Nova Mambone, em navegação de cabotagem, para visitar as comunidades e levar um pouco de comida e esperança a uma vila sitiada pela guerra. Assistia as populações, resgatando-as à fome, trazendo alimentos e acompanhava de longe a sua salina, transportando o sal, de barco, para o comercializar mais a norte.

IMG 3053Com a chegada da paz em 1992, trabalhou na recuperação da antiga Missão e das suas actividades económicas.

No início do ano 2000 uma terrível inundação que submergiu Nova Mambone e a Missão foi lugar de refúgio e de salvação para centenas de pessoas. Uma onda gigante arrasou e destruiu a salina de Batanhe.

Foi necessário reiniciar tudo e reconstruir o que tinha sido destruído. O momento é dramático. Mas a vontade indómita deste missionário, agora já com 73 anos, prevalece e tudo recomeçou, a partir do nada.

Em Fevereiro de 2007, a natureza enfurece-se novamente contra Nova Mambone e o ciclone “Favio” leva tudo o que encontra pela frente. Também então, o Padre Amadeu estava presente, juntamente com o Ir. Pedro Bertoni e o padre Gabriel Casadei. Sofreu, esperou e trabalhou. Em tudo amou e serviu e constituiu sempre vivo testemunho de fé e de missão.

 

O declínio: o adeus a Nova Mambone e a Moçambique

Depois de 2007, o Padre Amadeu começou a declinar física e psiquicamente. Nunca deixou de querer manter-se ligado à missão de Nova Mambone e fê-lo a todo o custo. Porventura, faltou-lhe a visão de compreender a necessidade de mudança e o imperativo de retirar-se no momento certo. Em 2011, compulsivamente deve deixar Mambone. Foi uma separação que o marcou profundamente.

Procurou porém adaptar-se aos novos ritmos da periferia da cidade de Maputo, mostrando-se disponível para ajudar naquilo que era necessário na Paróquia de Liqueleva. A sua saúde foi-se debilitando-se progressivamente. Em Maio de 2013 regressa definitivamente a Itália. Passa os últimos anos da sua vida na casa para missionários idosos de Alpignano. Faleceu no hospital de Rivoli no dia 24 de Setembro de 2016.

 

O Padre Amadeu foi, por ventura um dos missionários mais conhecidos em Moçambique.Uma vez recebeu por correio uma carta vinda de Itália que no envelope dizia apenas: "P. Amadio Marchiol,-Mozambico-Africa". A carta chegou às suas mãos na Missão de Nova Mambone. Ele era conhecido em toda a parte.

 

P. Diamantino Antunes

 

Actualizado em Segunda, 07 Novembro 2016 09:38